Voo AF447 - 11 anos


Hoje se completa 11 anos do acidente AF447 da Air France procedente do Rio de Janeiro rumo a Paris. Vamos relembrar um pouco desta tragédia.

O avião, de matrícula F-GZCP, partiu do Aeroporto Internacional do Rio de Janeiro-Galeão a 31 de maio de 2009, às 19:29 locais (22:29 UTC), e deveria chegar ao Aeroporto de Paris-Charles de Gaulle 10 horas e 34 minutos depois. O último contato humano com a tripulação foram mensagens de rotina enviadas aos controladores de terra brasileiros 3 horas e 06 minutos após o início do voo, quando o avião se aproximava do limite de vigilância dos radares brasileiros, cruzando o Oceano Atlântico em rota, seguindo para a costa senegalesa, na África Ocidental, onde voltaria a ser coberto por radares. Quarenta minutos mais tarde, uma série de mensagens automáticas emitidas pelo ACARS (Aircraft Communications Addressing and Reporting System ou Sistema Dirigido de Comunicação e Informação da Aeronave) foram enviadas pelo avião, indicando problemas elétricos e de perda da pressurização da cabine da aeronave, sem que houvesse outras indicações de problemas.

O A330 caiu no Oceano Atlântico, c 160 km (86,4 m.n.) a NNW do arquipélago de São Pedro e São Paulo fazendo 228 vitimas fatais (216 passageiros e 12 tripulantes).

As primeiras buscas pela aeronave se iniciaram no dia seguinte a decolagem, e após 26 dias de operações de buscas por corpos e destroços do voo, os comandos da Aeronáutica e da Marinha decidiram encerrar as operações. O anúncio foi feito no final da noite, por oficiais dos centros de Comunicação Social das duas Forças na sede do Cindacta 3, em Recife. O principal motivo foi que, mesmo com a utilização de 12 aviões e 11 navios militares, nenhum corpo havia sido encontrado nos últimos nove dias. Desde o dia 12 até o dia 17, apenas dois corpos foram encontrados. Durante o período de realização das buscas, foram resgatados 51 corpos, mais de 600 peças da aeronave, além de bagagens dos passageiros.

Doze aeronaves foram utilizadas, tendo sobrevoado por 1.500 horas e percorrido visualmente uma área de 350 mil quilômetros quadrados. A Marinha do Brasil utilizou onze embarcações, navegando por 35 mil milhas. O avião R-99 realizou busca eletrônica numa área correspondente a dois milhões de quilômetros quadrados. Estiveram diretamente envolvidos nas buscas, resgate e suporte um total de 1.344 militares da Marinha do Brasil e 268 da FAB, totalizando mais de 1.600 profissionais.

Novas Buscas

Em 17 de fevereiro de 2010, Jean-Paul Troadec, diretor do Bureau d'Enquêtes et d'Analyses pour la sécurité de l'Aviation Civile (BEA) da França anunciou uma nova fase de buscas submarinas das duas caixas-pretas. Foram utilizados dois navios, um estadunidense e um norueguês, equipados com quatro sonares e dois robôs, que vasculharam uma área de 2 mil quilômetros quadrados ao noroeste da última posição conhecida do avião antes da queda, a cerca de 1,2 mil quilômetros da costa brasileira.

Estamos utilizando os equipamentos mais sofisticados do mundo. Essa é uma das operações de busca mais complexas já realizadas até hoje. Não podemos fazer melhor do que isso.

Cerca de dois anos depois do acidente, em 4 de abril de 2011, equipes de busca e resgate francesas anunciaram a descoberta de mais destroços do avião em meio ao Oceano Atlântico, e de corpos ainda presos a uma grande parte da fuselagem encontrada praticamente intacta no mar. A descoberta, anunciada pela ministra francesa dos Transportes, Nathalie Kosciusko-Morizet, deu esperanças de que as caixas pretas do avião pudessem ser finalmente encontradas. A área em que os novos destroços com corpos presos neles foram encontrados, ficava no meio do oceano, cerca de dois a quatro dias de distância de navio tanto do Senegal quanto do Brasil e o fundo do mar no local é coberto de montanhas e vales.


No dia 1º de maio de 2011, foram encontradas as duas caixas pretas com os dados registrados do voo, além das gravações da comunicações dos pilotos. No dia 5 de maio, com a ajuda do robô submarino Remora 6000, de fabricação norte-americana, o mesmo que descobriu os destroços e as caixas pretas, a equipe de busca resgatou o primeiro corpo do fundo do mar. As autoridades francesas informaram que, após dois anos a 3 900 m de profundidade, os restos mortais encontravam-se em adiantado estado de decomposição. A notícia causou surpresa à Associação das Famílias das Vítimas do Voo 447 da Air France, já que numa reunião em abril com a BEA (Birô de Investigações e Análises), em Paris, havia ficado decidido que os corpos encontrados não seriam resgatados, permanecendo em seu túmulo no fundo do oceano.


Investigação

A responsabilidade das investigações ficou a cargo do governo francês, país em que a aeronave estava registrada, de acordo com a legislação da ICAO, Organização de Aviação Civil Internacional (OACI). A condução das investigações ficou sob a responsabilidade do Bureau d'enquêtes et d'analyses (BEA), agência do governo francês para investigar acidentes aéreos e fazer recomendações de segurança. O Brasil ficou responsável pela busca dos corpos, resgate de vítimas e destroços.

O avião desapareceu dos radares ao atravessar a Zona de Convergência Intertropical. As imagens de satélite mostravam uma grande concentração de nuvens cúmulo-nimbos, que chegavam a atingir 16.000 metros de altura, com intensas descargas elétricas, sobre o Oceano Atlântico na região do arquipélago de São Pedro e São Paulo, perto da última posição conhecida da aeronave e do local onde foram encontrados os destroços. Este é, no entanto, um fenômeno frequente na região e com o qual os pilotos estão muito acostumados, geralmente sobrevoando no topo das nuvens, a 15.000 metros de altitude, que é a zona menos perigosa. Os aviões dispõem ainda de um radar de proa que avisa sobre a proximidade de nuvens particularmente densas, permitindo que o aparelho desvie a rota a fim de evita-las.

Uma vez que o sistema ACARS reportou uma sucessão de avarias num curto intervalo de tempo, a falência do sistema elétrico e a despressurização do aparelho, existiam muitas hipóteses possíveis. De acordo com o CEO da Air France, Pierre-Henri Gourgeon, estas falhas criaram uma "situação totalmente inédita no avião". Segundo o diretor de comunicações da companhia aérea, uma das hipóteses seria a incidência de um raio, que conjugado com outros problemas, teria provocado uma avaria elétrica. O secretário de Estado de Transportes da França, Dominique Bussereau, comentou que apesar de nada se saber sobre o desaparecimento da aeronave, "parecia mais uma perda de controle do aparelho". Bussereau considerou ainda que a tese da Air France para explicar um possível acidente causado por um raio era incompleta.

Entre as outras hipóteses aventadas, teve especial relevo as avarias sucessivas devidas à turbulência ou um ataque terrorista, embora naquele momento, não houvesse qualquer elemento que permitisse avançar nessas hipóteses.

Havia também a referir que a EASA tinha alertado em Janeiro de 2009 os pilotos dos aviões Airbus A330 e A340, na sequência do incidente com um voo da Qantas, em Outubro de 2008, em que mais de 50 pessoas ficaram feridas quando o voo da Qantas, que fazia a ligação entre Singapura e Perth, quando ocorreu uma queda abrupta de vários metros quando viajava em velocidade de cruzeiro.

De acordo com o alerta, esses dois tipos de aeronaves registraram ocorrências anormais no equipamento ECAM (Electronic Centralised Aircraft Monitor) o que levaria a um comportamento anormal que provocaria, por exemplo, mergulhos em pleno voo.

O Tribunal de Paris anunciou no dia 5 de junho a abertura de processo, a ser conduzido pela juíza Silvie Zilmmerman, por homicídio culposo sobre o desaparecimento do Airbus A330 da companhia aérea Air France.

O BEA divulgou nota no dia 5 de junho em que afirma:

Uma grande quantidade de informações mais ou menos corretas e tentativas de explicações a respeito do acidente estão sendo veiculadas. O BEA lembra aqueles envolvidos nessa divulgação que é recomendável que se evite todo tipo de interpretação apressada e especulativa baseada em informações parciais e não confirmadas.
No estágio atual da investigação, os únicos fatos concretos são:
* a presença significativa de nuvens da zona de convergência intertropical, típicas da região equatorial, próximas a rota planejada do avião pelo Atlântico;
* baseando-se na análise das mensagens automáticas enviadas pelo avião, existem incoerências entre as várias velocidades medidas.

No dia 10 de junho de 2009 o jornal francês L'express publicou reportagem relatando que a possibilidade do acidente ter ocorrido em função de um atentado terrorista não estava totalmente descartada, visto que o nome de dois dos passageiros eram similares aos de figuras ligadas com entidades que patrocinavam esses tipos de atentados. No entanto, a falta da data de nascimento na ficha de embarque não permitiu que isso fosse realmente constatado, pois poderia se tratar simplesmente de homônimos que possuíam a mesma nacionalidade desses terroristas.

Relatório final

Em 5 de julho de 2012, o BEA (Bureau de Investigações e Análises), órgão do governo francês responsável pelas investigações, apresentou seu relatório final. Nele, o órgão aponta que a tragédia foi causada por uma combinação de erros de avaliação dos pilotos, com problemas técnicos ocorridos por congelamento nos sensores de velocidade (Sondas Pitot). Segundo o relatório as sondas Pitot, obstruídas por cristais de gelo, não conseguiram informar a velocidade correta da aeronave, o que causou a desconexão do piloto automático e em seguida diversos erros de avaliação dos pilotos.

“Este acidente resultou de um avião ter sido retirado de seu ambiente operacional normal por uma equipe que não tinha entendido a situação”Jean-Paul Troadec - Diretor do BEA.

A principal associação de pilotos da França posicionou-se contra o relatório, dizendo que os tripulantes não podem ser responsabilizados como principais responsáveis da tragédia.

Os cinco principais fatos relacionados oficialmente à imperícia da tripulação no momento da emergência foram:

inconsistência temporária das velocidades medidas pelos tripulantes
comandos inapropriados aplicados, desestabilizando o avião
falta de informação entre os tripulantes entre a perda de velocidade e o procedimento adequado
demora da identificação pelo copiloto da alteração na trajetória da nave
falha da tripulação em identificar a aproximação do estol
Vinte e cinco novas recomendações de segurança em voo também foram apresentadas pelo BEA.

Uma segunda investigação de especialistas foi ordenada pelas juízas Sylvia Zimmermann e Sabine Kheris, após a primeira peritagem apresentada em julho de 2012 às famílias das vítimas. Em abril de 2014, foi anunciado que a queda do voo Rio-Paris da Air France deveu-se a "uma reação inadequada da tripulação após a perda momentânea das indicações de velocidade". As conclusões do relatório de peritagem judicial especificam uma conjugação de fatores: erros humanos, falhas técnicas, procedimentos inadequados e condições meteorológicas adversas.

Justiça francesa rejeitou acusação contra Air France e culpou os pilotos pelo acidente, os juízes disseram que os pilotos não conseguiram processar todos os alertas e as leituras de instrumentos fornecidas pelo avião. O advogado que representa as famílias das vítimas disse que um recurso contra o veredicto seria apresentado imediatamente.

Reações e Serviços em memória das vítimas

O então presidente francês, Nicolas Sarkozy, esteve no aeroporto Roissy-Charles de Gaulle para acompanhar as investigações sobre o desaparecimento do avião. Segundo o Nouvel Observateur, os familiares dos passageiros foram levados a um espaço reservado para receber apoio da companhia aérea.

O então governador do Rio de Janeiro, Sérgio Cabral, decretou em 1º de junho, luto estadual por três dias. No mesmo dia, o prefeito do Rio de Janeiro, Eduardo Paes decretou luto por três dias, devido a morte de um dos funcionários da prefeitura de onde o avião partiu.

A Air France organizou uma celebração ecumênica na Catedral de Notre Dame, em Paris, pelas 16 horas locais de 3 de Junho, em homenagem aos passageiros desaparecidos sobre o Oceano Atlântico.

Na noite de terça-feira, 2 de junho, após a confirmação da queda do avião, o presidente brasileiro em exercício José Alencar decretou luto nacional por três dias, em memória das vítimas do acidente aéreo.

Um ato ecumênico foi realizado na manhã de 4 de junho na Igreja da Candelária com representantes de oito religiões. Participaram do ato parentes e amigos de passageiros que estavam no Voo 447, o ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, representando o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o chanceler francês Bernard Kouchner, além de outras autoridades do Brasil e da França.

Uma missa foi realizada na tarde de 5 de junho em memória dos passageiros na Igreja de Nossa Senhora do Carmo da Antiga Sé, no centro da cidade do Rio de Janeiro. Antônio de Orleans e Bragança, pai de Pedro Luis, estava presente.

Durante a manhã do dia 29 de junho, a Marinha e a Aeronáutica do Brasil realizaram uma cerimônia no mar nas proximidades de Recife em homenagem às vítimas do Voo 447. A cerimônia teve a participação da Fragata Bosísio e de mais cinco embarcações utilizadas nas buscas, além de quatro helicópteros. Um culto ecumênico foi realizado e flores foram lançadas ao mar. Autoridades da França também estiveram presentes na homenagem.

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